Mora em mim um velho…

30 03 2009

Mora em mim um velho rabugento e metódico. Levanta as sete da manhã todos os dias, ora as rezas gastas e se banha como se houvesse muitos compromissos. Veste-se com as mesmas cores. E apresenta-se quase sempre com um preto fosco, alternando raríssimas para o chumbo. Ele senta-se a mesa do café, na mesma cadeira na mesma hora e do mesmo jeito.

A ele não lhe dão muita atenção. Como muito não se dá aos velhos deste país. Resmunga embaralhadas palavras, quase que inaudíveis. Suspira ao vento em prosa e poesia e ganha lentamente raciocínio sobre seu dia. Gasta a maior parte de suas horas em quietude absoluta. Senta-se à varanda e produz um soluço que lhe pertence ha anos. Sempre nos mesmos minutos. Quase sempre força os olhos na tentativa frustrada de acompanhar as pessoas da rua. Sussurra alguns “bom dia” aos conhecidos e aos desconhecidos que insiste em conhecer. Ao meio dia, engole qualquer almoço.

Vez em quando, este velho que habita minha alma em segredo, se rebela. E então se desfaz da rotina que lhe impôs. Nestes momentos inicia suas frases, todas, com o paradóxo: -No meu tempo.  Fala com as paredes mofadas do azilo que o abriga esperando uma resposta para as suas perguntas. Cala-se depois, recompõe-se,  relembra todos os detalhes de seu eucarístico dia e torna a seguí-los. Ele é sozinho. E jamais quis ser diferente. Nunca experimentou o amor de ninguém, por pura escolha sua, em pacto com o destino. Mas não é infeliz por isso. Para ele a Solidão sempre lhe caiu bem, não teria paciência para enamorar ninguém. Nem saborear o detestável e insosso amor, como nas novelas que adorava assistir.

Ele é humildemente insociável. Gosta de futebol, acompanha fanático os campeonatos, mas vai aos bares dois dias depois que o Corinthians vence.  Comemora em quietude particular, faz questão de não ter a sua volta o alvoroço dos que insistem em amigar-se aos outros em gosto comum.  Depois de mais um rito, volta à casa. Deita-se e dorme satisfeito.

As pessoas vivem tentando falar com ele, lhe aconselhar. Ele ouve educadamente, mas não se importa. Satisfaz-se com os seus pensamentos e história de vida. Ele não é de todo mal. Deseja em premissa o bem de todos, costuma bem dizer os cachorros e cuida das plantas em quimera. Ele se retrai apenas para que não lhe invadam os espaços. Supõe mediante a isto, levantar guerra contra quem for. Hoje, restam-lhe poucas certezas. Dentre elas, uma promessa minha. Mantê-lo vivo por toda a eternidade.





É ilegal, imoral ou engorda

29 03 2009

Nos conhecemos fazem quase quatro anos. Travamos,desde então, uma relação previsívelmente inseparável. Indizível aos que não o possuem como amigo,amante ou enamorado. Não foi a primeira vista, confesso. Tampouco realizou-se como nas novelas ou filmes. E apesar do cinema antigo lhe prestar até hoje, um certo glamour. A primeira sensação que me causou, foi a de completa estranheza, me levando ao poucos à uma leve tontura (exclusiva sensação de quem se apaixona em pequenas doses, e aprende a gostar em submissão do outro, considerando até mesmo seus pequenos defeitos). Seguimos. E como toda relação construída aos poucos, levamos bem o fato de frequentarmos o mesmo círculo de amizades. E em um curto espaço de tempo, passamos a nos encontrar também sozinhos. Inicialmente achei difícil escondê-lo de meus pais. Enfrentei. Pois tê-lo todas as vezes em que a vontade aparecesse, bem próximo da minha boca, valía a mais cruel das sentenças. Tempos depois, tornou-se inviável escondê-lo. Escancarei as portas de mais uma de minhas intimidades. Alguns me disseram ser possível viver de forma obscura e excusa, segregando nossos encontros ao quarto escuro. Mas à mim, seria extremamente desgastante e doloroso vê-lo somente assim durante toda a eternidade como havia lhe prometido. Resolvi assumir ao mundo o nosso relacionamento. Os pais e alguns amigos extasiados com a notícia insistiram para que eu o deixasse. E enfrentei depois disso. e mais de uma vez, o terrível preconceito. Pouco importava. Como pouco importa alguma coisa, para alguém no auge dos seus dezenove anos. Continuei. Os anos íam, eu amadurecia. E controverso aos olhares alheios sempre que podia estava com ele. Reconheço que mesmo sem dizer uma palavra, todos os nossos momentos foram deliciosos e divertidos. E hoje mesmo observando que outras pessoas, com os seus, também o amam em silêncio xenofóbico, sinto que preciso findar nossa história. E eu só queria que ele soubesse, que se isso não se dá por consequência de puro e simples pré conceito. Nem tomo isso como medida e plano para 2010 com o intuito de magoá-lo. Mas é que sua presença e silêncio sepucral tem se tornado exaustivamente incomôdo. E mesmo que agora ele só importe à mim. Não há mais amor. E antes que protestem este relacionamento, como fazem à tantos outros. Sim, eu sei o quanto ele ainda colore as minhas melâncolias, e me acolhe em quietude quando todos os outros foram embora. Neste momento por exemplo, há o quarto, as palavras e ele. E mesmo que tudo que façamos seja ilegal, imoral ou engorda. E ele sabe que me fará falta. Tenho observado atentamente algumas de suas consequências. Que antes da nossa entrega total, nem me faziam piscar para entendê-las. Minha respiração por exemplo, já nâo é a mesma desde que nos conhecemos. Meu coração reclama atenção. E meu colestorol que já não está lá tão confiável, me ameaça enfarto a qualquer momento. Contudo querido CIGARRO, como dizia Lulu hoje no carro, “não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais”.





O sequestro da Esperança

15 03 2009

Hoje a Esperança levantou cedo e vestiu-se como de costume. Anunciou com beijos que buscaria os pães. Caminhou vagarosamente até a porta, olhou para trás,como que procurando algo e encontrou-me na cama a retribuir seu estatelar de dentes. Parecendo revigorada, partiu. Em meio a sonolência que me pertence nas manhãs. Inicei os rituais para despertar logo após sua saída, me encontrei na cozinha preparando o café. Na nossa casa todos os dias são assim, ou pelo menos os finais de semana. 

Seguindo a rotina que tanto me apetece, depois de coar o liquido tão presente em nossa vida a dois sentei-me a mesa. Sonolento, abanquei-me a espera de um retorno. Sem querer adormeci. Dei conta de que haviam se passado mais de meia hora, estranhei o gosto amargo na boca. Lembrei que precisava escovar os dentes. Fui ao banheiro e acabei escovando a alma, ao lembrar de como eu era feliz ao lado de minha parceira. Retornei a sala e ee atirei no aconchêgo das almofadas de um sofá a pensar no quanto custava a volta de meu grande amor. Lembrei-me de nossa última noite. Sem querer pensei em riso: “Perdeu-se a duas esquinas daqui?” Tempos depois do sussurar deste pensamento cheguei a ouvir curiosamente um tintilhar na fechadura. Me animei mas fiz dengo. Permaneci deitado, como quem espera um pouco mais carinhos. Segundos depois, percebi o frustrante engano. Liguei a televisão para enterter os pensamentos por alguns momentos. E passado um hora e meia sem retorno, estava absorto de qualquer entretenimento. Como um fungo incômodo a preocupação bateu-me na consciência. Resolvi que iria resgatá-la, trajei-me adequadamente e rumei em busca dela. Inútil procura. Questionei: -Haviam desaparecido com a minha esperança? Ou será que ela se foi sozinha? Ficou claro depois de alguns instantes e checagens de sequestro relâmpago, que nada demais havia acontecido no bairro horas e horas antes. Mesmo assim, esperei ao lado do telefone o pedido de resgate. Seria capaz de pagar qualquer preço para tê-la de volta, envolta em meus braços a ronrronar palavras de amor. Pensei consequentemente em assassinato, mas checando os arredores, nada, absolutamente havia acontecido naquele dia. O desespero se tornou maior com o cair dos segundos. Até mesmo maior do que a fome e a dor nos dedos, resultado da troca incansável de canais a procura dos noticiários.

Um dia todo depois, me dei conta que já era mais do que noite sobretudo fazia um frio indizível. Por instantes adormeci. Mas acordei rapidamente e assustado. Passaram-se dois dias. Comuniquei a policia, sem sucesso. Não a resgataram. Obtive no entanto, informações de que sua última aparição foi na pracinha aqui perto, aos beijos com outro alguém. Contestei. Para onde havia ido meu amor? Que razões tinha para me deixar? Vivíamos até aqui o melhor dos dias. E afinal porque fugiu assim?                                                    Depois de tempos soube que embarcou à Portugal.

Conformei-me relutante. Não tinha como visitá-la nas alguras de todos os sentimentos que me rodeavam. Em prantos de amargura fiquei. Levou consigo muito de mim. Tenho cá que nada tenha deixado, senão a amargura do café que eu lhe preparava e vontade renitente de tê-la novamente.

Tempos depois recuperei-me, mesmo que pêndido para um lado e vazio no outro. Balbuciei um “TUDO BEM …rumei à vida.
Confesso intimamente, ainda espero que volte. Muitas vezes basta-me saber que está viva, mesmo que em algum lugar distante de mim. E em seu regresso, não lhe cobrarei explicações. É preciso somente beijar-me novamente e dizer que ainda existem saudades. Esquecerei o tormento de viver sem ela, ela certamente sabe apagar tudo isso. Absterei-a das culpas. Basta prencher-me novamente.