O sequestro da Esperança

15 03 2009

Hoje a Esperança levantou cedo e vestiu-se como de costume. Anunciou com beijos que buscaria os pães. Caminhou vagarosamente até a porta, olhou para trás,como que procurando algo e encontrou-me na cama a retribuir seu estatelar de dentes. Parecendo revigorada, partiu. Em meio a sonolência que me pertence nas manhãs. Inicei os rituais para despertar logo após sua saída, me encontrei na cozinha preparando o café. Na nossa casa todos os dias são assim, ou pelo menos os finais de semana. 

Seguindo a rotina que tanto me apetece, depois de coar o liquido tão presente em nossa vida a dois sentei-me a mesa. Sonolento, abanquei-me a espera de um retorno. Sem querer adormeci. Dei conta de que haviam se passado mais de meia hora, estranhei o gosto amargo na boca. Lembrei que precisava escovar os dentes. Fui ao banheiro e acabei escovando a alma, ao lembrar de como eu era feliz ao lado de minha parceira. Retornei a sala e ee atirei no aconchêgo das almofadas de um sofá a pensar no quanto custava a volta de meu grande amor. Lembrei-me de nossa última noite. Sem querer pensei em riso: “Perdeu-se a duas esquinas daqui?” Tempos depois do sussurar deste pensamento cheguei a ouvir curiosamente um tintilhar na fechadura. Me animei mas fiz dengo. Permaneci deitado, como quem espera um pouco mais carinhos. Segundos depois, percebi o frustrante engano. Liguei a televisão para enterter os pensamentos por alguns momentos. E passado um hora e meia sem retorno, estava absorto de qualquer entretenimento. Como um fungo incômodo a preocupação bateu-me na consciência. Resolvi que iria resgatá-la, trajei-me adequadamente e rumei em busca dela. Inútil procura. Questionei: -Haviam desaparecido com a minha esperança? Ou será que ela se foi sozinha? Ficou claro depois de alguns instantes e checagens de sequestro relâmpago, que nada demais havia acontecido no bairro horas e horas antes. Mesmo assim, esperei ao lado do telefone o pedido de resgate. Seria capaz de pagar qualquer preço para tê-la de volta, envolta em meus braços a ronrronar palavras de amor. Pensei consequentemente em assassinato, mas checando os arredores, nada, absolutamente havia acontecido naquele dia. O desespero se tornou maior com o cair dos segundos. Até mesmo maior do que a fome e a dor nos dedos, resultado da troca incansável de canais a procura dos noticiários.

Um dia todo depois, me dei conta que já era mais do que noite sobretudo fazia um frio indizível. Por instantes adormeci. Mas acordei rapidamente e assustado. Passaram-se dois dias. Comuniquei a policia, sem sucesso. Não a resgataram. Obtive no entanto, informações de que sua última aparição foi na pracinha aqui perto, aos beijos com outro alguém. Contestei. Para onde havia ido meu amor? Que razões tinha para me deixar? Vivíamos até aqui o melhor dos dias. E afinal porque fugiu assim?                                                    Depois de tempos soube que embarcou à Portugal.

Conformei-me relutante. Não tinha como visitá-la nas alguras de todos os sentimentos que me rodeavam. Em prantos de amargura fiquei. Levou consigo muito de mim. Tenho cá que nada tenha deixado, senão a amargura do café que eu lhe preparava e vontade renitente de tê-la novamente.

Tempos depois recuperei-me, mesmo que pêndido para um lado e vazio no outro. Balbuciei um “TUDO BEM …rumei à vida.
Confesso intimamente, ainda espero que volte. Muitas vezes basta-me saber que está viva, mesmo que em algum lugar distante de mim. E em seu regresso, não lhe cobrarei explicações. É preciso somente beijar-me novamente e dizer que ainda existem saudades. Esquecerei o tormento de viver sem ela, ela certamente sabe apagar tudo isso. Absterei-a das culpas. Basta prencher-me novamente.

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