Para a Beleza Interna

28 07 2010

Querida, há quanto tempo não ouço falar de você! Vai tudo bem? 

Hoje assim sem mais nem menos, assistindo um besteirol televisivo, daqueles bem engordativos, que a gente quase não presta atenção do que se trata, ouvi seu nome. No começo desconfiei, e me perguntei se falavam mesmo de você. Liguei o “sentido aranha” e pasmem repetiram seu lindo, complexo e comprido nome. Até cutuquei minha cachorra (que me acompanha em qualquer programa da telinha) no intuito lisonjeado de dizer que eu te conhecia. É, eu te conhecia! Atento ao desenrolar do diálogo, afim de descobrir porquê preteriam seu nome, descobri que nada falavam de você em específico. Mesmo assim aguardei, afinal você é uma das poucas amigas “meio –famosas” que tenho, e das quais sempre espero noticias. E mesmo sabendo que você não é a Lady Gaga, ou mesmo, uma das Paniquetes, Caldeiretes ou antigas Vedetes, que hoje fazem pornô, para que te lembrassem assim com tanto esmero e paciência de explicar-lhe aguardei alguma informação, nem que fosse pra saber se você estava envolvida com o PCC ou qualquer acordo de Paz entre o Iraque e o Islã. Até pensei que anunciariam sua participação num ou outro programa matutino, que mistura culinária com auto-juda. Mas nada mais falaram de você. Usaram seu nome pra quase nada, foi como copo descartável, necessário  para um determinado fim, mas no fundo totalmente dispensável ao termos um copo mais corpulento e de vidro. Mas se eu bem te conheço, você não deve ter dado a mínima para o que falaram ou deixaram de falar de você. No fundo, nunca ligou muito pra essas coisas, não é verdade? E agora disso tudo eu tiro o lado bom, lembrei de você. E por isso te escrevo.

Gostaria de dizer-te tantas coisas, mas acima de tudo agradecer-te por ter sido minha parceira em tantos goles de auto-estima no momento em que mais precisei. Por exemplo, sua presença foi de suma importância na minha adolescência, mesmo que servisse apenas pra justificar os óculos brega e o gosto refinado por música francesa. É verdade, vivi tantas coisas boas acreditando em você, e nos papos longos que tivemos pelo ICQ que nem sei como retribuir. E por isso esta carta tem também o intuito de me desculpar, sei que te abandonei depois do colégio, mas por favor não me culpe totalmente. Sabe como é jovem. Fui na maré de todo mundo e acabei me esquecendo um pouquinho da sua importância. Mas compreenda na faculdade ninguém falava de você, na balada também não, e no trabalho então acho que nunca ouvi o seu nome. E como segui com a vida, entre algumas academias e altas doses de salão de beleza, acabei por deixar de ligar, e confesso que até me esqueci – só um poquinho- de você. Sei que vai de encontro a tudo que me ensinou. Mas descobri que é feio ser feio. E mais do que isso, colocando as modéstias a parte, a gente tem que ser pelo menos arrumadinho. No entanto, gostaria que soubesse que nunca usei seu seu santo nome em vão. Guardei a busca de você e seus ensinamentos só pra mim. E só por isso beijei tantos no intuito de descobrir se calhava de achar as duas coisas – externa e interna beleza – numa mesma pessoa. Falhei miseravelmente, claro! No entanto não desistirei. Apesar de você me ensinar que de verdade não dá para ser os dois, e muito menos ser os dois ao mesmo tempo, num mesmo lugar ou numa mesma hora. Eu ainda acredito que o mundo tem salvação!

Sem mais, desejo que reaja no coração do ser humano. Sei que sua popularidade anda caindo, mas não quero ver isso acontecer de vez. Por isso mude de agente, produtora ou sei lá mais o quê. Espero ver entre peitos e bundas de silicone, nem que seja um pouquinho de você. Por isso, reapareça de vez em quando, nem que seja pra saudar o coração de alguém que diz que te procura, mas no fundo está procurando a outra também. Quem sabe a gente não vence eles pelo cansaço? De duas uma, ou povo para de falar de você em vão, ou passam a realmente te entender.   

Um grande beijo,

Marcos  Vieira

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Nascimento

16 07 2010

Preciso romper a placenta que te envolve. Inspecionar a inauguração do seu mundo de dentro pra fora. Sê cheio, insano, tranquilho ou intenso. Necessito do gosto da matéria prima. O que te faz? O que pretende? O seu isto para ou corre? Só assim nasceremos completos e perfeitos um para o outro. E por isso eu busco o olhar primeiro. A sua descoberta e sensatez sobre as coisas do mundo. É meu dever e vantagem levar você ao encontro de ti. E por isso te escrevo insone e em desespero. Grito no centro da minha vida, te querendo e ao mesmo tempo desembarcando das viajens sem rumo. Já conheço o mundo e o tenho inteiro dentro de mim, incluindo as mínimas gotas, todas em gestação.

Eu não espero. É latente e intenso. E o que atrapalha é que sou homem feito. No fundo sempre fui. Alma gasta, forma antiga. E como qualquer fruta maturada, as brincadeiras de roda não satisfazem. Escrevo-te  dentro da hora, em plena fulmição dos minutos. Saberemos  e nasceremos? Não sei, e isso me consome.





As dúvidas…

15 07 2010

Eu escrevo para aliviar as dúvidas. Dizem fazer bem e não haver contra indicações. Por isso saio do meu estado de quarto, travesseiro e cabeceira – sozinho e insone – para me travestir de verbo e substantivo. O objeto direto é a descrição, e ao mesmo tempo, abraço do improvável. E para tudo o que vier a nos ocorrer só me impus uma regra: não usar interrogação. Afinal as dúvidas ficariam imensamente felizes com este singelo símbolo. E mesmo que eu queira saná-las, no meu íntimo sei que as preciso. Contudo não quero satisfazê-las, nem alimentá-las. E para o que restar, usarei pontos e interjeições. Eles iram me bastar, mesmo que o nosso infinito seja ainda uma grande e particular onomatopéia.





Das dualidades (no sense)

14 07 2010

Uma parte de mim é o que sou, outra é pasta de dente amassada e concentrada para branquear os dentes.

Uma parte de mim é esquecimento total, aquecimento global. Outra parte de mim é agenda organizada e alfa-numerica. As vezes sou matemática – bem pouco, confesso – outras sou estória, português e geografia.

Uma parte de mim é confiança, outra é dúvida e ressentimento. Verbo e interjeição. As vezes sou meio ridículo, criança boba, um completo sem noção, n´outras sou adulto elegande e contido.

Uma parte de mim é casado, aliança e compromisso, outra é solteiro, rebelde, livre e desempedido. As vezes sou Metallica, Cazuza, Rolling Stones e Madonna, n´outras sou Joss Stone, Dido, Ana Carolina, Buarque, Gil, Clarice e Elisa.

Um de mim são dois, três, quatro ou quantos você precisar, outra parte é egoísta, solidão e descaso impune e frio.

Uma parte de mim é baixeza, safadeza, homem. Outra parte é mulher e se deleita no refrão do mestre: – Já fui mulher, eu sei!

Uma parte de mim é Oxóssi, preto, sambista e macumbeiro, outra parte reza quase que em silêncio orações católicas-budistas.

Uma parte de mim se conhece bem, outra destemida se desvenda a cada dia.

Uma parte de mim é política, ciências sociais, outra é operador de call center.

Uma parte de mim te quer insanamente, sem como e nem porquê. Outra parte de mim te detesta e se desfaz do não compromisso que devota à mim.

Uma parte de mim é noite, inverno em plenitude, outra é praia e verão com os amigos.

Uma parte de mim escreve e é eloquente, outra ouve num silêncio sem pretensão.

Uma parte de mim é o que sou, outra é dezenas, centenas de pessoas.





A todos que não foram e não ligaram (Fernanda Young)

13 07 2010

Bom, você não foi. E não ligou. A mim, só restou lamentar a sua falta de educação. Imaginando motivos possíveis. Será que você não foi porque realmente não pôde ou simplesmente não quis? Será que não ligou para não me magoar ou justamente o inverso disso? Estou confusa, claro. Achava que você iria. Tanto que eu aguardei sua chegada por mais minutos do que deveria, inventando desculpas esfarrapadas para mim mesma. O trânsito, o horário, a meteorologia. Qualquer pneu furado serviria. E até o último instante, juro, achei que você chegaria a qualquer momento. Pedindo perdão pelo terrível atraso. Perdão que você teria, junto com uma cara de quem está acostumada, e assim encerraríamos o assunto. Mas você não foi. Esperei outro tanto pelo seu telefonema, com todas as esclarecedoras explicações. Para cada razão que houvesse, pensei numa excelente resposta. Para cada silêncio, num suspiro. Para cada sensatez de sua parte, numa loucura específica da minha. Se você tivesse ligado do celular, eu seria fria. Se tivesse ligado do trabalho, seria levemente avoada. Se a ligação caísse, eu manteria a calma. Foram muitos dias nessa tortura, então entenda que percorri todas as rotas de fuga. Cheguei a procurar notícias suas pelos jornais, pois só um obituário justificaria tamanha demora em uma ligação. Enfim, por muito mais tempo do que desejaria, mantive na ponta da língua tudo o que eu devia te dizer, e tudo o que você merecia ouvir, e tudo. Mas você não ligou. Mando esta carta, portanto, sem esperar resposta. Nem sequer espero mais por nada, em coisa alguma, nesta vida, para ser sincera. No que se refere a você, especialmente, porque o vazio do seu sumiço já me preenche; tenho nele um conforto que motivos não me trarão. Não me responda, então, mesmo que deseje. Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida. Que não aconteceu, assim deixemos para lá. Estaria, entretanto, mentindo se não dissesse que, aqui dentro, ainda me corrói uma pequena curiosidade. Pois não é todo dia que uma pessoa não vai e não liga, é? As pessoas guardam esses grandes vacilos para momentos especiais, não guardam? Então, eis a minha única curiosidade: você às vezes pensa nisso, como eu penso? Com um suave aperto no coração? Ou será que você foi apenas um idiota que esqueceu de ir?