Dos títulos e minha infância

29 12 2011

“Coisa de taurino tolo querendo demarcar território, resumindo as coisas para entender melhor e ruminar com mais rapidez o que envolve aquele ser humano, objeto, sentimento ou lugar diante de mim. Mania de infância, intrínseca a mim.”

Sempre criei títulos para as coisas. Era de mim desde rebento só começar uma enfadonha redação do pré, do colégio, se para ela eu tivesse um bom título. Me lembro que uma vez uma professora brigou comigo porque haviam se passado horas até que eu começasse a escrever uma linha, tudo isso porquê fiquei confabulando o título mais adequado para alguma coisa entre terceiro mundo e fome. E era quase toda vez do mesmo jeito, sem título, sem redação. Não é que a história já não estivesse pronta na minha cabeça, apenas não conseguia desenrolar os fatos se não houvesse para aquele contexto um bom e velho título.

Com o passar do tempo fui amadurecendo a importância e reconhecendo à que servem até mesmo os títulos mais estranhos: os nomes. Me lembro que na adolescência achava linda uma menina que se chamava Nilcelene. Ela não era bonita, encantadora, nem simpática, nada nela me apetecia de verdade. Me apaixonei por ela por conta do estranho título que a envolvia. Era como se aquele nome estivesse esperando uma história a ser contada por mim, e era isso que me encantava. Não durou, é claro, mas tive uma história para contar sobre aquele nome que resumia aquela pessoa sem graça que ela era e isso já me bastava.

Seguindo na descoberta de títulos, nomeando e descobrindo novos e cada vez mais inusitados nomes para cada uma das coisas, fui me fazendo homem. Durante a vida, adquiri muitos títulos. Alguns eu quis, outros sem querer foram direcionados à mim. Houveram momentos em que desejei ávido me livrar de alguns deles e hoje percebo que ainda luto para conquistar outros. Coisa de taurino tolo querendo demarcar território, resumindo as coisas para entender melhor e ruminar com mais rapidez o que envolve aquele ser humano, objeto, sentimento ou lugar diante de mim. Mania de infância, coisa de parto e educação intrínseco a mim.

Ainda não me tornei especialista na magia secreta de nomear as coisas. É claro que já aprendi a intitular algumas realidades com mais propriedade e até mesmo reconhecê-las com mais parcimônia. Entendi com o passar dos anos que algumas situações se bastam apenas com um título de indefinição. Pois por mais duro que pareça, nem tudo tem contexto, história ou redação certa para o desenrolar de linhas. E no fundo a realidade é na maioria das vezes assim. Até aí tudo bem, mesmo com a indefinição eu já me satisfaço para alguns casos. Mas o que fazer quando a história pegou rabeira na esperança da lembrança de dias bons, de momentos intensos, de trocas indagáveis, de histórias com linhas, pontos e parágrafos que podem ser facilmente contados a qualquer um, porém não possuem um título específico? A resposta para esta pergunta eu não sei. Claro que é um não sei para mim. E por hoje é isso o que me tira o prumo, o rumo e mexe com as estruturas aprendidas no berço.

O meu problema não é descrever-te ou falar sobre minhas histórias. Tenho páginas e páginas mentais preparadas para contar os detalhes dos seus olhos nos meus, dos seus olhos nos outros, da sua boca em mim, da nossa quase verdade rente a pele, dos dias de sol e praia, dos dias de chuva e carro, do seu e do meu trabalho. Se quer saber, tenho até começo, meio e um fim improvisado para tudo o que vivemos num verão inacabado. E é por isso que não posso encaixar o que vivemos como indefinido, seria tão mais fácil, mas é impossível, eis aí o meu desespero. Juro que procurei no fundo, do escuro de mim, um título experiência que me resuma ou resenhe o que vivemos, o que temos, ou que teremos daqui pra frente. Queria um bem bonito, que combinasse com seu nome que já é um título dos mais caros pra mim. E você pode até sugerir: Amigos? Não, ainda não me cabe. Felizes? Também não se encaixa. Para sempre? Não faz o menor sentido, mesmo que você seja para mim  o passado  mais árduo e que não passa.

Contudo o que me enlouquece, pode não fazer o menor sentido para você ou para os outros que me lêem. Este é outro título que aprendi com tempo: espera. Por fim cada um com seu cada qual, com suas histórias e seus títulos ou não. Mas para mim, como expliquei aqui, e agora todos já sabem, sem título, sem história, sem catarse. Embora não sem sofrimento, sem sentimento, sem amor e sem história para explicar-lhe.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: