Espera-se

2 01 2014

 

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Procura-se: desaparecidos, cachorros, ilustradores talentosos, carpinteiros, notícias,  apartamento para alugar ou dividir, empregadas e babás. O verbo transitivo procurar vem do latim procurâre, que significa ocupar-se de, fazer diligências para encontrar, buscar, esforçar-se por descobrir, refletir, desejar encontrar-se com, dirigir-se para, pretender ou tentar.

Conheço gente que procura, mas procura mesmo, e o faz desesperadamente. É gente aos berros procurando alfinetes pela casa, clipes em papéis antigos, objetos inanimados para continuar algo, problemas para se ocupar, anotações de uma reunião importante, yoga para confortar, neurolinguística para treinar o cérebro, meditação para sentir-se melhor sobre o que a vida não dá. Sei de gente que até procura o tempo que perdeu, numa tentativa subumana  de reviver o passado como personagem de filme. Sobretudo, muitos que conheço – muitos mesmo – procuram um amor. Querem e buscam incansavelmente este sentimento. Frequentam locais com o objetivo de, simulam uma personalidade que não possuem e até se enfeitam (e como se enfeitam) em prol da busca incansável do amor. Eis pra mim a dialética da questão.

Estranhamente sempre entendi a procura como uma ação interligada a algo que você já teve. Buscar o que nunca se teve é sonhar. E acreditem a maioria dos que conheço e que buscam um amor, apenas idealizam o que ele é sem o terem realmente conhecido. Entenda meu caro, sonhar é bom, mas nada tem haver com a transição da busca de algo. Procurar o é o entremeio do que você deseja, é a maneira interna de se construir para algo, é o modo, a lapidação e nunca a conclusão do objetivo. A meu ver , querer e sonhar, são antônimos de procura.

Veja bem, ao associar o desejo do amor a procura, acredite, você se tornará ridículo. Simplesmente porque tentará de tudo. Estar em lugares que não quer, fazendo coisas que não te compõem, justificando para si próprio qualquer ato desmedido em busca de algo que não depende de você. Isso mesmo, amor depende do acaso, do não propósito de encontrá-lo.  Sempre acreditei que amor nos encontra numa sexta feira chuvosa em que você furou o pneu do carro e quase ninguém parou para ajudar, ou mesmo, quando você sem motivo foi àquela festa de um amigo tão querido e alguém especial te saudou com um copo de plástico enquanto você pedia mais uma cerveja. Qualquer coisa diferente disso poderá ser o seu querer imenso misturado a uma busca daquilo que você nem sabe mesmo se é amor.

Não quero fazer apologia à quem busca, confesso que num momento demente da minha existência já fiz parte da turma do procura-se, mas por hora limito-me a turma do espera-se. Se quem espera alcança, nunca saberei. Mas por enquanto me preparo para o que a vida me oferece de mais bonito: a casualidade dos dias não especiais. Por estas e outras espera-se alguém que não ligue pra roupa que eu visto, mas que se importe com o tipo de sorriso eu coloco no rosto. Espera-se alguém com suas opiniões e convicções, seus gostos estranhos, que debata comigo de uma forma saudável sua visão de mundo. Espera-se alguém que faça diligências sim, mas só se for com a finalidade de realizar surpresas castas e não castas para nós dois. Espera-se alguém que curta música boa e até diferente do meu gosto. Espera-se alguém que não se interesse no amor completude, mas sim no amor complemento. Espera-se alguém que não busca nada com nada, mas que se deixe levar pela poesia mais pura da alma. Por fim, espero alguém que também espera. Porque embora que quem procura acha, quem espera sempre se prepara e se conhece do melhor jeito.





Prosa quase poética

27 08 2013
Assassino na Alameda (1919) - Edvard Munch

Assassino na Alameda (1919) – Edvard Munch

Em dias assim,

Onde há noites de Sol e vento,

Me arrisco em ruas escuras

Desafiando a sorte.

Ando metros, quilômetros, léguas

E numa prosa quase poética

Suspiro com medo, mas também com vontade

Tomo água, degusto canções

Pulo canteiros sem plantas

Tropeço em calçadas,

raízes de árvores,

Lixo.

Rio de um verão escaldante que não condiz com nada

E num lapso devaneio, insano, insone e sereno

Eu peço,

Eu espero.

Suplico e desejo que me assaltem,

O coração

O pensamento

A alma.

Só pra sentir,

Para bater alguma coisa aqui,

Que pulse diferente da frequência

Solidão saudade.

Algo que me reviva o coração vazio

Que não bate

apenas palpita oco

Pulsando esperança

de  te encontrar pelo caminho

E ao mesmo tempo te deixar partir

Para algum lugar

Que me liberte

De um eterno caminhar poético e pachorrento

Desalento de intensidade

Compasso apertado

Pungente peito estufado

De um vazio que só existe

Quando em dias assim,

Me disponho a cansar-me

Para que fatidicamente me assaltem

O coração

O pensamento

A alma

E o desejo de ter alguma coisa aqui

Que me faça existir





Gente Felizinha

29 05 2010

Gente Felizinha acorda cedo e não reclama de nada, agradecem felizes os despertadores por fazê-las levantar aos sábados as 07h da manhã para mais um dia de “lavoro”. Espreguiçam-se pouco, e quando precisam dar uma aliviada no sono se alongam. Só por que faz bem ao tônus muscular e não porquê são preguiçosos. Viu? Essa gentinha é uma espécie de “super dispostos da nova geração”. Tudo entre aspas, isso mesmo, por que gente feliz adora falar com as mãozinhas fazendo aspas.

Esse tipo comum e notório hoje em dia, bem diz a tudo, literalmente tudo, inclusive as desgraças do mundo (encontram para tudo uma óbvia resposta no evangelho segundo espiritismo) e vão a Cruz Vermelha freqüentemente. Gente Felizinha, dá bom dia sonoro, e acolhe o cachorro morto que os normais atiram na sarjeta. Gente feliz toma café sem açúcar e come pão com fibras – apenas uma fatia sem manteiga – eles não precisam de mais nada de manhã, seus intestinos funcionam bem, e senão eles tomam Activia.

Gente Felizinha vive aos montes por aí, se exercita e caminha pelo bairro contemplando o que continua exatamente igual. Eles se dizem a juventude da física quântica e só lêem Auto-Ajuda. Inclusive para eles Shinyashiki é quase um Deus. Lispector, Manuel de Barros e Vinicius de Morais são os depressivos que eles pretendem ajudar a encaminhar a alma em todas as orações.

A massa de Gente Felizinha quer namoro sério, sem sexo (Obs.: sexo oral pode!), noivado, família, filhos héteros e sem H1N1. Eles costumam correr no Ibirapuera e enfrentar filas quilométricas para assistir Avatar, Homem de Ferro 2 e Alice no país das maravilhas, mas gente assim também adora comédia romântica e ação barata do Bruce Willis. Eles se acham extremamente culturais e inseridos em todos os meios. Religiosamente  pensam nas questões filosóficas do mundo sem uma absoluta gota de álcool no sangue. Porquê gente feliz não bebe – apenas experimenta porquê são educadinhos – preferem suco Diet a qualquer outra oferta num encontro com os amigos.

Gente Felizinha odeia cigarro, e ficou feliz com a Lei Anti Tabaco, eles quase impõe placas para ninguém fumar até no ponto de ônibus em céu aberto. Contudo, essa gentinha diz ter compaixão pelos outros. Mas usa tênis de marca, bolsinhas da Loui Vuitton e jamais se esquecem de passar protetor solar. Gente feliz se reúne todo domingo para almoçar macarronada e agüentar a Tia chata que só diz asneira. Eles não se aborrecem com nada, e tentam convencer o mundo de que a opinião deles é a mais sensata.

Gente assim é um nada, mesmo achando que suas caretíssimas almas são o seu principal bem.

Ok, ok …

Nos vemos no inferno!





É ilegal, imoral ou engorda

29 03 2009

Nos conhecemos fazem quase quatro anos. Travamos,desde então, uma relação previsívelmente inseparável. Indizível aos que não o possuem como amigo,amante ou enamorado. Não foi a primeira vista, confesso. Tampouco realizou-se como nas novelas ou filmes. E apesar do cinema antigo lhe prestar até hoje, um certo glamour. A primeira sensação que me causou, foi a de completa estranheza, me levando ao poucos à uma leve tontura (exclusiva sensação de quem se apaixona em pequenas doses, e aprende a gostar em submissão do outro, considerando até mesmo seus pequenos defeitos). Seguimos. E como toda relação construída aos poucos, levamos bem o fato de frequentarmos o mesmo círculo de amizades. E em um curto espaço de tempo, passamos a nos encontrar também sozinhos. Inicialmente achei difícil escondê-lo de meus pais. Enfrentei. Pois tê-lo todas as vezes em que a vontade aparecesse, bem próximo da minha boca, valía a mais cruel das sentenças. Tempos depois, tornou-se inviável escondê-lo. Escancarei as portas de mais uma de minhas intimidades. Alguns me disseram ser possível viver de forma obscura e excusa, segregando nossos encontros ao quarto escuro. Mas à mim, seria extremamente desgastante e doloroso vê-lo somente assim durante toda a eternidade como havia lhe prometido. Resolvi assumir ao mundo o nosso relacionamento. Os pais e alguns amigos extasiados com a notícia insistiram para que eu o deixasse. E enfrentei depois disso. e mais de uma vez, o terrível preconceito. Pouco importava. Como pouco importa alguma coisa, para alguém no auge dos seus dezenove anos. Continuei. Os anos íam, eu amadurecia. E controverso aos olhares alheios sempre que podia estava com ele. Reconheço que mesmo sem dizer uma palavra, todos os nossos momentos foram deliciosos e divertidos. E hoje mesmo observando que outras pessoas, com os seus, também o amam em silêncio xenofóbico, sinto que preciso findar nossa história. E eu só queria que ele soubesse, que se isso não se dá por consequência de puro e simples pré conceito. Nem tomo isso como medida e plano para 2010 com o intuito de magoá-lo. Mas é que sua presença e silêncio sepucral tem se tornado exaustivamente incomôdo. E mesmo que agora ele só importe à mim. Não há mais amor. E antes que protestem este relacionamento, como fazem à tantos outros. Sim, eu sei o quanto ele ainda colore as minhas melâncolias, e me acolhe em quietude quando todos os outros foram embora. Neste momento por exemplo, há o quarto, as palavras e ele. E mesmo que tudo que façamos seja ilegal, imoral ou engorda. E ele sabe que me fará falta. Tenho observado atentamente algumas de suas consequências. Que antes da nossa entrega total, nem me faziam piscar para entendê-las. Minha respiração por exemplo, já nâo é a mesma desde que nos conhecemos. Meu coração reclama atenção. E meu colestorol que já não está lá tão confiável, me ameaça enfarto a qualquer momento. Contudo querido CIGARRO, como dizia Lulu hoje no carro, “não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais”.